Vontade de matar celebridades (e Dharmendra não está aqui para nos corrigir)
A tragédia não é termos lamentado a morte do ator de Sholay cedo demais; é não termos sabido como deixá-lo viver plenamente seus últimos dias.
A morte de Dharmendra é diferente. Não apenas porque perdemos um homem que personificava uma masculinidade mais gentil e desinibida, mas também porque a nação ensaiou sua partida algumas semanas antes do necessário. Enquanto ele lutava pela vida na UTI, as pessoas já publicavam seus obituários, compartilhavam playlists nostálgicas e escreviam ensaios comoventes para uma tragédia que ainda não havia acontecido. Era como se estivéssemos impacientes com o ritmo da mortalidade, ansiosos para pular para o fim.
Agora que a notícia é real, estamos presos em um estranho déficit emocional. O luto genuíno parece diluído, pré-gasto, consumido durante o alarme falso. Dharmendra se foi, mas o país o lamentou antecipadamente — e esse luto prematuro diz mais sobre nós do que sobre ele.
Esta é a patologia moderna: matamos celebridades não por ódio, mas por antecipação. Anunciamos suas partidas com a mesma antecedência com que as gerações anteriores reservavam a louça para ocasiões especiais. Uma celebridade entra na UTI e a internet silenciosamente entra em modo de obituário. O desejo não é enganar; é sentir-se à frente do momento.
Dharmendra nunca foi um Morgan Freeman — não era uma vítima em série de boatos na internet. O que aconteceu com ele foi mais sutil e revelador. Quando a notícia de sua saúde debilitada se espalhou, as pessoas correram para escrever homenagens “por precaução”. Não era desinformação; era “luto precoce”, o equivalente emocional a chegar cedo demais a um funeral e ficar sem jeito em um salão vazio.
Por que temos tanta pressa em enterrar pessoas que ainda respiram?
Sociólogos poderiam dizer que somos uma civilização exausta pela continuidade. Tudo se arrasta indefinidamente hoje em dia — dramas políticos, universos cinematográficos, vidas de influenciadores, séries de streaming com temporadas desnecessárias. Nada termina de forma definitiva. Mas a morte ainda termina. Ela nos dá linhas claras, uma pontuação decisiva. O falecimento de uma celebridade oferece o tipo de encerramento que a vida moderna se recusa a dar, e ansiamos tanto por esse encerramento que começamos a antecipá-lo.
A psicologia oferece uma explicação mais íntima. Matamos celebridades cedo porque não suportamos vê-las envelhecer. Dharmendra representava uma versão da Índia que silenciosamente se evaporou — um tipo de heroísmo generoso, charme despretensioso e sinceridade emocional que nenhuma cultura de influenciadores consegue replicar. Ver essas figuras definharem nos perturba. Seu declínio ameaça nossos mitos. Então, tentamos congelá-las na forma sépia que preferimos, escrevendo imaginativamente o final antes que a vida o faça.
E então há a geração do Instagram. Não apenas os jovens, mas também a geração mais velha, ainda mais entusiasmada, que pensa que dominar os vídeos é sinal de juventude. Essa nova tribo transformou o luto em conteúdo. Eles produzem um “luto estético”, completo com filtros retrô, vídeos em câmera lenta de Dharmendra e uma tristeza com trilha sonora perfeita. Quando ele estava na UTI, muitos já tinham posts de homenagem prontos, pausados como rascunhos em uma redação. O luto costumava ser privado; agora é curado, padronizado, otimizado.
Essa performance de luto colapsa a fronteira entre expectativa e evento. No momento em que uma celebridade adoece, um mercado paralelo de pseudo-homenagens entra em ação. Não por crueldade, mas por uma necessidade compulsiva de ser o primeiro a chegar — o primeiro a postar, o primeiro a sentir, o primeiro a representar a tristeza.
Enquanto isso, as redações descobriram que a mortalidade é a emoção que mais gera cliques. Mesmo sem declarar a morte de Dharmendra, canais e portais adotaram um tom de contagem regressiva solene: “Estado grave”, “Família preocupada”, “Fontes incertas”. Alguns o mataram prematuramente, outros ensaiaram. Porque nada aumenta o engajamento do público como uma tragédia iminente. O jornalismo adquiriu silenciosamente os instintos de um funcionário de necrotério checando o relógio.
Mas a morte de Dharmendra quebra a narrativa. De repente, a nostalgia parece artificial, as homenagens ensaiadas demais, o luto pré-fabricado demais. Quando o momento real chegou, teve que competir com seu próprio ensaio.
A Índia amava Dharmendra porque ele era aquela rara estrela que humanizava o heroísmo. Sua morte impacta não por ele ser uma celebridade, mas por ele representar uma era. E talvez seja por isso que suas últimas semanas expuseram nossa impaciência cultural de forma tão contundente. Não sabemos mais como deixar os ícones envelhecerem em silêncio, ou permitir que seus últimos dias tenham a dignidade da incerteza. Exigimos certeza narrativa mesmo antes que a vida termine de ser escrita.
No fim, a tragédia não é termos lamentado a morte de Dharmendra cedo demais; é não termos sabido como deixá-lo viver plenamente seus últimos dias — sem especulações, sem conteúdo, sem a respiração ofegante e artificial.
Ele se foi. E, pela primeira vez, não há ensaio. Apenas o silêncio que ele sempre mereceu.
